"A Arena não é e nunca foi do Grêmio", afirma advogado que examinou o contrato em 2009

Gladimir Chielle já havia avisado sobre o compromentimento das finanças do clube há três anos

A delicada situação envolvendo Grêmio e OAS já havia sido premeditada. Em 2009, o advogado Gladimir Chielle fez uma análise crítica do contrato da Arena e previu que as finanças do clube ficariam comprometidas caso fosse assinada a parceria. Em entrevista exclusiva para o Yahoo!Esporte Interativo, o advogado destaca que na época da assinatura teve "uma espécie de hipnose positiva coletiva" e todos achavam que o Grêmio era Imortal e que nada aconteceria. Além disso, Chielle afirma que se a direção não tomar uma iniciativa logo, o Grêmio pode não existir daqui vinte anos.

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Em 2009, você já tinha alertado que o Grêmio não poderia cumprir com o contrato sem prejudicar as finanças. Porque afirmou isso naquele ano?

Gladimir Chielle: Por um detalhe muito simples. O contrato possui cláusulas "intransponíveis". Essa questão de cumprimento do contrato acaba prejudicando as finanças do clube. Tem duas cláusulas específicas. Uma delas trata dos "famosos" 65% do lucro líquido ajustado que seria do Grêmio. Só que isso se conceituou de forma mentirosa. Pelo que disseram, o clube ficaria 65% de tudo aquilo que seria arrecadado na Arena. Essa não é a verdade. É 65% aplicado numa sobra recorrente da receita total do Estádio, menos todas as despesas operacionais, menos a amortização do financiamento, menos o juros, menos depreciação e menos a necessidade de capital de giro da empresa. Isso aplica 65% na "sobra", que será do Grêmio. Isso durante anos, pode não dar nada ou até deixar no negativo. Outra cláusula nociva para as finanças do Grêmio. Ninguém entra na Arena sem pagar ingresso. Então, se o Grêmio tiver qualquer promoção (como por exemplo, os sócios), o Grêmio tem que pagar. Foi feito um aditivo dos "famosos" R$ 41 milhões por ano para os sócios poderem ir na Arena sem precisar pagar no dia da partida.

Então a Arena não é do Grêmio?

Chielle: A Arena não é e nunca foi do Grêmio nesta negociação toda. A Arena só seria do Grêmio daqui a vinte anos, isso se o Grêmio existir até lá. Então, daqui 20 anos se transmite a propiedade do Estádio. Se a Arena fosse do Grêmio, ele não precisava alugar um espaço para poder colocar seus sócios lá!

Como assim se o Grêmio existir até lá? Tem a ver com o comprometimento das finanças?


Chielle: Isso tem a ver severamente com o comprometimento das finanças. O problema todo é que precisamos de receita para poder montar uma grande equipe. Como por exemplo, nós temos hoje um ótimo time, graças a ousadia do presidente Fábio Koff. Porque tem que ter coragem para montar um time desta qualidade, mesmo com este processo todo que está se vivendo. Como está na mídia, um bom time precisa de R$ 8 milhões mensais com folha. E para isso é necessário ter receita, mas quando tu deixa de receber e ainda tem que pagar para entrar no teu Estádio, isso vai comprometer o futuro do clube. Há menos que se crie um clube com a folha baixa salarial e não dispute campeonatos. Sem receita não existe time. Nossa preocupação é essa. Do que adianta ter um estádio lindo, se não tiver até lá nehnum título ou tiver problemas de manutenção de existência do time. Esse é o problema, não temos receita e ainda vamos ter que desembolsar para jogar no Estádio.

O que aconteceu em 2009 quando você apresentou o estudo do contrato?


Chielle: Quando foi assinado, houve uma euforia pela construção do Estádio. Foi uma espécie de hipnose positiva coletiva. Quem não quer um estádio de primeiro mundo? Por isso ninguém foi contra. Até que o ex-presidente Hélio Dourado conseguiu uma cópia do contrato e pediu para fazermos uma análise técnica. Nós passamos a analisar os termos propostos e verificamos claramente que o conjunto do contrato acabaria com as receitas do Grêmio. Em dezembro de 2009, elaboramos uma "análise" crítica do contrato e mostramos para muitas pessoas. Apresentamos as dificuldades que o Grêmio teria, e as pessoas simplesmente não deram ouvidos. Ainda não dão. A casa tá caindo e parece que tá tudo bem. Que nada está acontecendo.

Quem foram as pessoas que não deram ouvidos para o você em 2009?


Chielle: Nós apresentamos, em uma reunião de três horas, para o então presidente da Grêmio Empreendimentos, Adalberto Preis (atual integrante do Conselho de Administração), para alguns membros do conselho, apresentamos para o presidente da época, Duda Kroeff, para algumas pessoas individuais. E absolutamente, se tinha o conceito que aquilo era uma ilusão, uma previsão do apocalipse. Que o Grêmio seria Imortal em qualquer circunstância. Aliás, as pessoas que assinaram o contrato continuam com essa posição. O Grêmio está com um déficit mensal e aquelas pessoas continuam achando que está uma maravilha. Ou eu tenho que ser internado ou essas pessoas tem que dar muita explicação para o que está acontecendo. Porque hoje está acontecendo na prática no que apresentamos há 3 anos. Na época, as críticas foram intensas para mim, por conta que eu estaria pregando o apocalipse sem jsutificativa. Mas as coisas estão acontecendo até mais rápido do que eu esperava. E eles continuam achando que está uma maravilha. Eu realmente não sei o que está acontecendo.

Existe uma solução para resolver está situação entre Grêmio e OAS?

Chielle: Existe sim. Inclusive na segunda-feira passada (18), tivemos uma reunião com Koff e entregamos um documento sugerindo algumas alternativas para o presidente como forma de contribuição acerca do encaminhamento de uma solução para isso. Koff está num processo de junção de documentos, informações, análises, para formar uma convição. Destacamos algumas questões importantes que podem ser consideradas alternativas e ele também está ouvindo muita gente para tomar uma decisão. Está decisão vai ser histórica, talvez a mais importante da história do Grêmio.

Quais foram as alternativas apresentadas?

Chielle: Até por uma questão de encaminhamento, nos comprometemos com o presidente de não comentar o conteúdo do documento até que haja uma posição adotada por ele. Então prometemos que não falaríamos sobre o assunto.

Uma das alternativas que a direção especula é a compra dos direitos da Arena. A possibilidade de o Grêmio formalizar uma oferta torna-se cada vez mais possível. A hipótese está prevista na cláusula 7.4 do contrato firmado entre o clube e a OAS, em dezembro de 2008. Contudo, a negociação não tem nenhum valor estipulado no contrato. Este é um dos principais pontos analisados, para saber qual o valor que seria necessário desembolsar na compra. O Grêmio teria que assumir o financiamento feito junto ao BNDS, que gira em torno de R$ 260 milhões e serão pagos nos próximos sete anos.