ATIVIDADES DE AMIGOS

    Ponto de Bola

    Trinta anos do tetra

    Falcão marca o segundo gol de Itália 3 x 3 Brasil, na conquista do tetra

    São 30 anos. Não parece que foi ontem a conquista do tetra na Espanha. Mas foi um show. A Alemanha era campeã europeia, tinha um excelente time. Mas vinha cansada da prorrogação na semifinal contra a ótima França. Fez 1 a 0, gol do artilheiro Hrubesch, em mais uma bobeada defensiva brasileira. Nosso setor direito era vulnerável pelo rodízio que Telê bolou sem treinar devidamente. Por ali eles fizeram estragos contra o desprotegido Leandro, que não tinha a guarida nem de Sócrates, nem de Falcão, nem de Cerezo, nem de Zico.

    Mas havia para jogar futebol Zico. Sócrates. Falcão. Cerezo. Júnior. Leandro. A bomba de Éder, que Schumacher não segurou. Havia um então pálido Serginho Chulapa que desencantou e virou o jogo. Sócrates fez o terceiro, na metade do segundo tempo. Zico marcou o sensacional quarto gol, o da consagração, que nem Rummenigge conseguiu ofuscar, diminuindo o placar quando o Brasil, para variar, estava todo no ataque.

    O tetra em campos espanhóis foi um show de futebol. O time de Telê não jogou naquela Copa de 1982 tudo que fizera na excursão pela Europa de 1981. Mas era o melhor num ótimo Mundial. O melhor desde então. Na semifinal, contra a Polônia, o Brasil fez 3 a 1 com facilidade. Dois gols de Zico e um de Falcão foram mais que suficientes. Ainda que o gol rival tenha saído em mais um excesso de firula de um time com problemas defensivos causados pelas muitas soluções ofensivas. Talvez um pouco mais de Batista na cabeça da área resolvesse. Ou mesmo Paulo Isidoro de volta à direita, no 4-2-3-1 de Telê, apoiando Leandro no combate aos rivais.

    O susto levado contra os italianos, em Barcelona, no estádio do Espanyol, foi fundamental para o time ser mais compacto, mais atento na contenção, e não precisando todo momento sair com os dois laterais, com os volantes, e até com o zagueiro Luisinho, como no segundo gol de Paolo Rossi. Só ficavam Oscar e Valdir Peres na defesa. O goleiro são-paulino até podia não ser o melhor goleiro do Brasil na época (Leão e Raul estavam muito bem), mas Valdir só falhou - muito feio - na estreia. Quando a Seleção ganhou no talento e na raça da URSS - também pela arbitragem que não viu dois pênaltis.

    Sorte nossa, mais uma vez, que até o apito gosta do Brasil. Como o árbitro israelense, que viu dentro do gol a bola que Oscar cabeceou e Zoff, um monstro, defendeu sem largar, aos 43 minutos nas quartas-de-final. A Itália vencia por 3 a 2, três de Rossi. O Brasil reclamava de um pênalti em Zico no primeiro tempo, do mesmo modo como os italianos tiveram um gol mal anulado de Antognoni. Mas erro maior foi Abraham Klein ter dado o gol. Zoff ficou segurando a bola antes da linha fatal. O árbitro e o bandeira não quiseram saber. "Empataram" na marra o jogo para o Brasil, que bobeou muito contra uma Itália que resolvera jogar o que não jogava havia um ano. Mas, naquele dia, em Barcelona, era dia de Brasil.

    Ainda bem. Seguimos em frente e ganhamos o tetra, há 30 anos.  Se o Brasil perdesse a Copa de 1982, a Seleção de Telê ficaria como um time perdedor, tal qual a Hungria-54 e a Holanda-74. Até hoje diriam que não era tudo aquilo, que a defesa falhava, que não tinha espírito de competição... Seria horrível para o futebol. Não só para o brasileiro.

    Talvez não ganhássemos o penta em 1994 e o hexa em 2002 por conta de uma possível derrota. O futebol perderia um pouco da graça. Mas é do jogo. Que pede riscos. E que aceita qualquer resultado. Dos reais aos fantasiosos.

    Imagine se o Brasil perde aquele jogo?

    VOLTA À REALIDADE -

    "Sarriá 82 — O que faltou ao futebol-arte", da Maquinária Editora, é obra digna do Brasil de 1982. Escrita por Gustavo Roman e Renato Zanata, que (re)viram quase todos os jogos de Coutinho e de Telê. Eles entrevistam, analisam, propõem saídas e entradas para aquele time que tinha defeitos táticos. Porque não existe time perfeito. Nem invencível.

    É obra reverente e crítica no tom exato. Que enaltece um grande derrotado. Tão elogiável quanto um respeitável (nem sempre admirável) campeão. Faltou segurar a bola depois do 2 a 2 com a Itália? Faltou Batista? Paulo Isidoro? Sobrou Cerezo? Serginho? Soberba? Comprometimento? Sobrou Itália?

    Tudo isso? Nada disso? Sei lá. Jamais saberemos. Mas o livro é quem melhor busca as respostas.